O falo e os santos: sobrevivência de ritos pagãos no nordeste brasileiro

Ensaios

O FALO E OS SANTOS: SOBREVIVÊNCIA DE RITOS PAGÃOS NO NORDESTE BRASILEIRO Mauro Junior R. Sousa Resumo As festas juninas, assim como outras datas festivas, são reflexos de culturas que antecederam a era cristã, convencionou-se chamar, por influencia da igreja católica, a produção cultural e as civilizações dessa época de pagãos, não só alusivo ? ‘Vipe view next page contraposição ao bat a denominação gené destinados a reveren fecundidade humana OF8 d ra b os, mas como desses povos, colheitas ea Palavras – chave: paganismo, festas juninas, sexualidade, crenças e ritos.

Abstract The juninas parties, as well as other festive dates, are reflected of cultures that had preceded the Christian age, were stipulated to call, for influence of the church catholic, the cultural production and the heathen civilizations ofthis time of, not only allusive to the contraposition to the baptism, known for all, but as the generic denomination of the places of cults of these peoples, destined to reverenciar the nature, the good harvests and the opostos, a confecção de bandeirinhas ornamentais, a associação direta com a doutrina cristã, representada pela figura do padre da aróquia e as festas populares regadas a Quentão, Aluá, bolo de milho, pipoca e outras iguarias que dão o tom característico das festas juninas, sobreviventes diretos de ritos pagãos europeus. As festas juninas como se conhece hoje originaram de uma série de ritos e práticas européias que antecederam a era cristã. Podem ser identificadas, pelo contexto histórico em que esses rituais eram praticados, como festas relacionadas à Agricultura e a fertilidade, representada pelo falo que introduz o sêmen para gerar a vida.

Muitas destas festividades já descaracterizadas pelo ristianismo (que contraditoriamente assimilou algumas dessas práticas), resistem às mudanças impostas pela modernidade e se colocam como tradição presente em quase todos os estados brasileiros. Elas são tudo o que há de mais profundamente humano e de mais visceralmente pagão já dizia o folclorista Gustavo Barroso. Velhas como o mundo, se têm transformado ao sabor de cada meio e ao gosto de cada povo. No Nordeste a versão contada e registrada dos festejos está baseada na história do cristianismo no ocidente. Diz-se que a natureza sempre foi fruto de homenagens em diversas ociedades ocidentais. Antes do domínio cristão, os povos bárbaros realizavam rituais de agradecimento aos deuses, pelos frutos gerados pela terra, utilizando fogueiras, sacriffcios, cantos e danças.

No nordeste, essas práticas se intensificaram à medida que o poder público passa a incentivá-las, promovendo campeonatos e liberando investi à medida que o poder público passa a incentivá-las, promovendo campeonatos e liberando investimentos que incentivam essa atividade: “Das comemorações brasileiras, as festas juninas estão entre as mais antigas e mais recheadas de histórias. Em nosso País, figuram ao lado do Natal e do carnaval em popularidade. Ressaltemos seu caráter tao festivo, a animação e a quantidade de costumes e rituais. Fogueiras, bandeiras, danças, fogos de artifício, comidas, quermesses, pau-de-sebo, correio elegante, casamento caipira, balões, quentão, mil superstições”. (Ronaldo Evangelista in Almanaque Brasil de Cultura Popular) Com o advento do cristianismo, os povos mantiveram a tradição, através do sincretismo religioso, passando a homenagear os santos do período do plantio e os ritos do fogo ocorriam com o acender de fogueiras e o soltar de fogos de artifício. Dia de São João é 24 de junho, o ápice das festas Junnas. As fogueiras, símbolo máximo da comemoração, estão relacionadas às tradicionais festas pagãs existentes na Europa antes da chegada do cristianismo, realizadas em homenagem aos deuses da fertilidade, em que se comemoravam as boas colheitas e o fim do inverno. A adoração a São João era tradicional na Península Ibérica e, foi, portanto trazida ao Brasil pelos jesuítas. A atração pelo fogo usado nas festividades desse santo facilitou o processo de catequização dos nativos pelos padres. (CORTEZ, Gustavo Dança Brasil — Festas e Danças Populares).

Partindo de um conceito psicanalitico relacionado aos arquétipos junguianos, exploramos os recônditos de diversas culturas e encontramos um elo entre estas e 3 arquétipos junguianos, exploramos os recônditos de diversas culturas e encontramos um elo entre estas e as festas juninas no Nordeste do Brasil. Não obstante, embora se contrapondo a Psicologia Analítica, nos apropriamos, de forma fragmentada, das concepções de Gillie Deleuze e Guatarri sobre o conceito de rizoma (cuja análise desestrutura uma suposta identidade concebida em toda e qualquer objeto ou corrente literária/ ientifica podendo dissociar de suas particularidades em profundidade, as manifestações culturais do que elas representam para os povos que as cultuam).

Com base nos argumentos dessa corrente filosófico/literária, estabelecemos uma nova premissa que contesta essas manifestações culturais inserindo um novo ângulo para discuti-las, propondo que tais manifestações, assim como outras não são genuinamente brasileiras. O objeto em foco neste trabalho, diz respeito ao mastro e a figura de Santo Antonio e as influencias desses elementos, principalmente no imaginário feminino. Não há elemento mais ugestivo no tocante a união sexual, do que esses objetos cultuados inconscientemente como uma representação do falo, detalhe que se contrapõe à moral cristã estabelecida na maioria das mentes ocidentais.

Durante milênios, a participação do homem na procriação foi ignorada. A fertilidade era considerada característica exclusivamente feminina. Acreditava-se que a vida pré-natal das crianças começava nas águas, nas pedras, nas árvores ou nas grutas, antes de serem introduzidas por um sopro no ventre de sua mae humana. Mas quando o homem começou a domesticar os animais, percebeu surpreso, que para a DF8 humana. Mas quando o homem começou a domesticar os animais, percebeu surpreso, que para a procriação é necessário o sêmen do macho. Sobre essa e outras reflexões encontramos o seguinte registro: “A partir de então, houve uma ruptura na história da humanidade.

Nessa época, há mais ou menos cinco mil anos, a fertilidade era tudo, e a fertilidade humana e a dos campos estavam estreitamente ligadas. E o homem se vê transformado em fertilizador da terra. Afirmando que era seu sêmen que implantava a vida no útero da mulher, o homem passou a considerá-la como uma simples caverna protetora. O pênis se tornou, então, objeto natural de adoração e fé religiosa. Na qualidade de ‘phallos’, era reverenciado da mesma forma que o órgão feminino tinha sido anteriormente”. (LINS, Regina Navarro. O livro de Ouro do Sexo). Desde há muito se tem acreditado na figura de Santo Antonio como um interventor para assuntos de matrimonio, tão ansiado por mulheres solitárias que vêm na figura do santo uma solução para suas aspirações. ossível afirmar que bem poucas pessoas têm conhecimento da origem dessas crenças e a maioria delas com certeza não sabe que alguns rituais e cultos de fertilidade na Europa estavam diretamente ligados á figura de um mastro, que tinha como objetivo simbolizar o órgão sexual masculino. Entre esses encontramos talvez um dos mais significativos do mundo pagão, o culto a Sabácio, divindade agrícola conhecida na Frigia e na Lídia com atributos similares a Dionísio: Sabácio era representado com chifres na cabeça, similar a Dionísio, também chamado Deus cabrito. Pan e Priapo eram igualmente cultuados n S cabeça, similar a Dionísio, também chamado Deus cabrito. Pan e priapo eram igualmente cultuados nas Sabátidas.

Ambos eram epresentados pelas figuras de faunos e bodes, senão pelo falo que os substituía, espécie de bastão que todos traziam a reunião, invariavelmente noturna, na qual os convivas banqueteavam sentados ao chão sobre peles de animais caprinos, com as quais também se cobriam… Após o gozo do mestre, e enlevados pela bebida, misturavam-se todos não importando o sexo e “fecundavam-se” mutuamente. (PLANETA, N. 7, Julho 2001) As festividades agrícolas e as divindades aqui mencionadas são representadas pela figura do mastro como o centro do culto para o qual todas as atenções são dirigidas, principalmente pelas ulheres que desde essa época acreditam que o falo trazia sorte no sentido de torná-las férteis e ao mesmo tempo, contrair um matrimônio seguro. ? com a figura do deus Priapo que Roma difunde para o resto do Ocidente o culto ao falo. Transfigurado pelos portugueses para a imagem de santo Antonio. Gilberto Freire assinala a influencia dessas crenças no Brasil: “Os Interesses de procriação abafaram não só os preconceitos morais como os escrúpulos católicos de ortodoxia; e ao seu serviço vamos encontrar o cristianismo que, em Portugal, tantas vezes tomou característicos quase pagãos de culto fálico. Os grandes santos nacionais tornaram-se aqueles a quem a imaginação do povo achou de atribuir milagrosa inter„’enção em aproximar os sexos, em fecundar as mulheres, e em proteger a maternidade. Freire in casa Grande e senzala, 2004. Pág. 326)”. Ainda em relação a esses cultos, destacamo (Freire in Casa Grande e Senzala, 2004. Pág. 326Y’. Ainda em relação a esses cultos, destacamos a imagem de Priapo, divindade romana que melhor representa o culto ao falo. O fenômeno do culto fálico se espalhou por todo o mundo antigo e é representado em vários monumentos em diferentes lugares. Em alguns templos dedicados a divindades fálicas, o deus esculpido em madeira era visitado com tanta frequência por mulheres estéreis e esperançosas, que o pênis se desgastava pelo manuseio, pelos beijos, fricções e sucções a que era submetido.

Para solucionar o problema, os sacerdotes fabricavam um falo muito comprido, que emergia de um orif[cio entre as coxas do deus. Quando a ponta se desgastava, eles, por trás da estátua, davam martelados, empurrando um pouco o pénis. Essas crenças chegaram a Portugal e posteriormente no Brasil indubitavelmente através dos romanos, tanto que outros antos tiveram sua imagem associada à sexualidade. É nesse contexto que encontramos, Alem de Santo Antonio, uma outra representação desses cultos na figura de São Gonçalo, santo a quem é atribuído um fetichismo exacerbado, associado ? tentativa de satisfazer o desejo e as fantasias sexuais de homens e mulheres. Prática comum encontra-se descrita ainda em Gilberto Freire; .

Já nos referimos ao costume das mulheres estéreis de se friccionarem “desnudadas”, pelas pernas da imagem jacente do bem aventurado, “enquanto os crentes rezam baixinho e não erguem os olhos para o que não devem ver” a fricção sexual dos empos pagãos acomodada a formas católicas”. ( FREIRE, Gilberto, op. Cit. Tomando como exemplo a prática ac a formas católicas”. ( FREIRE, Gilberto, op. Cit. Tomando como exemplo a prática acima descrita, não é absurdo afirmar que tal poderia existir de outra forma, utilizando-se a mulher das estatuetas dos santos, como uma simulação do ato sexual, com a efigie do santo simbolizando o falo. Neste caso a estatueta no seu antropomorfismo representaria exatamente o órgão reprodutor masculino.

Se não é de hoje que esses rituais acontecem, elegendo a imagem dos santos como uma salvação para o matrimonio e sexo, podemos, traçando um paralelismo embora arbitrário, com as culturas pagas, analisar tais manifestações do ponto de vista da saciedade dos instintos primários: a fome (saciada pela boa colheita), e o amor e o sexo (relacionados com as divindades que proporcionam a fertilidade e o prazer sexual). Com as festas juninas entendemos que essas crenças e as histórias ilustram bem como o culto ao falo, de forma Inconsciente ou disfarçada, ainda continua presente. E o imaginário como não poderia deixar de ser, prevalece mantendo vivas muitas das tradições perdidas que se transfiguram através da história. 8

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